ETs em letras pontiagudas
Análise dos créditos iniciais do filme Sinais
Quais foram as cenas que mais te impactaram numa sala de cinema? Você consegue se lembrar?
Para mim, uma das cenas que mais me marcou não é exatamente uma cena. São os créditos iniciais do filme SINAIS de 2002. Lembro a emoção tremenda de ver aquelas letras saltando da tela.
Veja aqui os créditos em alta qualidade
Os créditos do filme são bem simples. Ou melhor, falsamente simples. Letras pretas cortadas numa tela que se ilumina e apaga com lampejos de azul acinzentado. A sensação é que as letras foram recortadas numa fina película metálica. Enquanto os nomes aparecem bem grandes na tela, a música de James Newton Howard alterna entre o som alto de orquestra e o silêncio.
Como disse, os créditos parecem simples. Talvez sejam mesmo. A revista ID de 2003 considerou esses créditos os piores créditos do ano. Segundo os críticos, os designers desses créditos perderam a chance de fazer algo interessante para um filme tão aguardado. Mas, tanto na época como hoje, muita gente acha esses créditos sensacionais. Eu estou no time dos que acha sensacionais. E vou dizer o porquê.
E O QUE FAZEM ELES GENIAIS?
Em primeiro lugar, a escolha da fonte e a diagramação são inteligentes. O segredo do bom design está nos detalhes. Os designers escolheram Requiem da Hoefler, uma fonte elegante, de inspiração renascentista e com serifas finas, finíssimas na verdade. É uma fonte com jeito orgânico, que em outro contexto poderia indicar um filme de época, ou drama delicado. Mas os nomes aparecem gigantescos, com o mínimo de entrelinhas. A sensação é de algo orgânico mas agressivo, empilhado, pontudo demais, como garras e espinhos. Essa sensação agressiva das serifas é realçada pelos ataques agudos da música.
E os nomes saltam da tela. As palavras nos atacam com o ritmo inconstante dessas luzes, que piscam em sincronia com as marteladas dos instrumentos. Somos atacados por essas palavras centralizadas. A iluminação parece de um farol de carro. A tela permanece com as bordas escuras, num elegante efeito vignette. A sensação é de um ataque simples, sem escapatória. Frontal.
Créditos de Spiderman de 2002
O tamanho das fontes no cinema tem um impacto tremendo. Na época, estava na moda fontes pequenas nos créditos, e o uso descarado de computação gráfica tridimensional. O texto de SINAIS, apesar de 3D, lembra demais créditos de filmes antigos ou programas de televisão. Imagens de leitura rápida e direta. Ao mesmo tempo, ao contrário da maioria dos créditos de filmes antigos, os créditos de sinais não têm um adorno barroco, não têm brincadeiras caricatas. Não têm teias de aranha, letras que parecem derreter, um fundo de nuvens ou do céu estrelado, o que remeteria ao ataque alienígena do filme. São créditos sóbrios.








